A palavra como forma de transformação

De pesquisadora a autora, e de autora a fundadora da própria editora, Marta Magda transforma tradições em histórias e literatura em obras que merecem respeito.

Marta Magda sorrindo durante uma sessão de autógrafos

Uma paixão pela palavra que encontrou a tradição

Marta nasceu e cresceu na Ilha de Santa Catarina, uma cidade com uma riqueza natural e cultural de importância sobrenatural.

A paixão pela palavra apareceu cedo e levou-a ao curso de Letras, onde estudou literatura e língua portuguesa na UFSC. Da leitura de textos, o interesse migrou para a pergunta sobre como as pessoas se organizam em torno daquilo que acreditam. O mestrado em Ciência da Religião abriu essa porta, com o olhar voltado para comunidades, religiosidades e suas estruturas internas de organização e fé.

O doutorado em Antropologia Social, com pesquisa em parentesco e família, possibilitou o contato com a comunidade da Freguesia do Ribeirão, bairro tradicional da Ilha onde a presença das benzedeiras permanece mais viva. Nesse contexto, Marta começou a observar, com olhar de pesquisadora, uma tradição enraizada em Florianópolis: as práticas de benzimento, transmitidas há gerações, mantidas por um número restrito de pessoas e registradas quase que exclusivamente por meio da memória oral.

A virada aconteceu em 2017, quando o propósito de registrar a tradição de benzer foi contemplado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Apoio às Artes e à Cultura do Estado de Santa Catarina e se tornou um projeto editorial.

Marta Magda abraçada com uma das benzedeiras entrevistadas, segurando o livro Dona Fulana morreu e levou consigo tudo o que aprendeu?

Do trabalho de campo ao livro

O livro nasce de uma pesquisa de campo extensa, conduzida por Marta junto a benzedeiras e benzedores da Ilha até o continente. Cada entrevista foi feita com atenção ao detalhe: o gesto específico de cada benzimento, a oração transmitida por gerações, a lembrança de como aprenderam o ofício.

Para quem lê, isso significa que cada página carrega conhecimentos coletivos, histórias documentadas e práticas que, de outra forma, permaneceriam restritas à memória de poucos.

Essa pesquisa resultou em um livro que articula duas camadas de narrativa. A primeira reúne 29 minibiografias, uma para cada pessoa entrevistada, registrando nome, rosto e prática individual. A segunda dá destaque a 10 contos de ficção: narrativas originais, construídas a partir dos relatos reais, que transformam memórias e práticas em literatura, permitindo que o leitor entre nesse universo por meio da força da linguagem narrativa.

A fotógrafa Virginia Maria Yunes complementa o texto com o registro visual documental. A fotografia captura os indivíduos e suas peculiaridades que a escrita sozinha não ilustra com o mesmo peso.

Escrever foi a parte fácil

Terminar de escrever marcou o fim de uma etapa e o início de outra, mais difícil. Levar o livro até o leitor exigia decisões sobre impressão, distribuição, presença em livrarias e canais de venda, tudo isso sem abrir mão da autonomia sobre a própria obra ou da proximidade direta com quem lê.

As grandes editoras, em geral, operam com lógicas de mercado que privilegiam títulos de apelo nacional e dificultam o reconhecimento e o impacto de obras regionais, além de impor barreiras burocráticas e reduzir a fatia de faturamento que fica com o autor. Marta decidiu resolver esse problema formando sua própria empresa.

A Magda Editora nasceu dessa necessidade prática: viabilizar a comercialização do livro em condições que preservassem o controle criativo, garantissem uma divisão de faturamento mais justa e desburocratizassem o processo, permitindo que uma obra regional tivesse o reconhecimento e o impacto que suas histórias merecem. Ao mesmo tempo, construíam uma carreira literária sustentável no longo prazo, não apenas um lançamento isolado.

Princípios que nos guiam

Esse é o nosso norte, que desenha no horizonte o apoio a outros autores que queiram publicar com o mesmo cuidado editorial e consideração cultural.

Conexão

Manter proximidade real entre quem escreve, quem publica e quem lê.

Autonomia criativa

Garantir que a obra pertença, de fato, a quem a criou.

Longevidade

Pensar cada título como parte de uma trajetória, não como um ponto final.

Capa do livro Dona Fulana morreu e levou consigo tudo o que aprendeu?

Conheça o livro que registra as histórias das benzedeiras e benzedores da Ilha de Santa Catarina

Um título que reúne 29 minibiografias e 10 contos de ficção, com registro fotográfico documental.